A pregação de Santo André

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 19/01/2024)

Cinquenta anos depois, os portugueses continuam a dividir-se em duas espécies: os que fazem questão de pensar pela sua cabeça e os que gostam de ser pensados por outrem.


Não adianta insistir em chamar fascista a André Ventura: ele não é fascista. Eu sei o que é um fascista e não é o caso de Ventura. Quanto mais não seja, porque lhe falta substrato intelectual para isso, senão também convicções. Fascistas — ou, pelo menos, saudosistas do Estado Novo — são, sim, muitos dos seus seguidores, aquele povo imenso de que já aqui falei, que em 24 de Abril de 1974 vivia perfeitamente instalado e obediente com a situação e uma semana depois estava nas ruas a jurar que o povo unido nunca mais seria vencido e todos eles eram, afinal, uma vasta maioria silenciosa de socialistas e comunistas de várias espécies. Nunca, de facto, desapareceram, apenas não encontraram representação à altura desde então — e devemos isso à direita democrática, nomeadamente ao CDS. Mas se querem saber onde é que eles estão, o que pensam e o que desejam para o país, se têm saudades do cheiro abjecto de um fascista português, basta ler os comentários dos leitores do “Observador”: está lá tudo, estão lá todos, em todo o seu inconfundível esplendor. Mas a esquerda, igualmente instalada nos seus dogmas, acha que para travar o Chega basta chamar-lhe fascista e logo acrescentar os dois outros inevitáveis adjectivos do mantra: racista e xenófobo. E depois sentam-se, à espera de que as palavras bastem. É como o combate à seca no Algarve: só quando a água está na iminência de faltar nas torneiras é que percebem que o problema não se resolve só com discursos, relatórios e estudos sucessivos.

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O crescimento contínuo do Chega é, obviamente, obra de um homem só, pois à roda dele não existe nada nem ninguém, apenas uma plateia de rostos sem expressão ou alguns com a inconfundível marca da inveja dos medíocres estampada na cara, quando não mesmo indisfarçáveis sinais de perturbações mentais por tratar. Se algum dia aquela gente chegar ao poder, o espectáculo será assustador e o resultado uma espécie de solução final. Mas isso — que é a fraqueza de uma coisa a que dificilmente se pode chamar um partido — tem de ser levado a crédito de André Ventura, um verdadeiro case study da ciência política. Sozinho, ele inventou o Chega, conseguiu tornar-se notícia explorando sabiamente a volúpia cega da comunicação social por tudo o que cheira a dissidência, aguentou depois dois anos como deputado único, fazendo barulho por quatro ou cinco, daí crescendo para um grupo parlamentar, mas continuando na prática como deputado e voz única do partido, indo a todas e todos os dias e transformando o átrio da Assembleia da República (onde estão as televisões) na sede do partido. Primeiro que tudo, isto: trabalho, um trabalho infatigável — no plenário, nas comissões, junto das câmaras e microfones do átrio ou em baixo das escadarias, ao pé dos manifestantes da PSP ou outros cujas causas apadrinha.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Depois, as causas. Por falta de convicção ou por simples instinto político, André Ventura sabia que não podia recuar ao credo do Estado Novo “Deus, Pátria, Família”. Por muito que quisesse atrair os saudosistas desse “viver habitualmente”, os tempos mudaram. Deus não é hoje questão política entre nós, e Ventura até nem gosta do Papa Francisco e do espírito do Vaticano II; a pátria não está em causa, a menos que se queira discutir a UE e pôr em causa os preciosos milhões que nos envia, o que não seria aconselhável, e a família é hoje uma noção jurídica e factual muito difusa. Havia que encontrar novas estratégias de abordagem ao reaccionarismo profundo de uma larga franja de portugueses e Ventura começou por encontrá-la na questão dos ciganos. Apostou, e bem, que iria escavar apoio popular e a hostilidade histriónica do pensamento politicamente correcto. A questão dos ciganos é uma questão complicada e difícil de resolver: entre eles, há muito boa gente e gente trabalhadora, mas muitos não se integram por si, não se deixam integrar e poucos querem integrá-los. À luz do Estado de direito, temos obrigação de o fazer, mas também temos obrigação de o fazer segundo as regras do Estado de direito, e não segundo as deles. Isto não se resolve com simples enunciados anti-racistas, mas com um trabalho persistente e delicado junto das comunidades, no terreno. Sabendo como a solução é difícil e complexa e como do outro lado só lhe opunham a facilidade dogmática, Ventura seguiu também o caminho da facilidade inversa, encontrando terreno fértil: não por acaso, o Chega obteve os seus primeiros grandes resultados eleitorais, roubando votos ao PCP e à esquerda, nos círculos do Alentejo e do Algarve, onde existem grandes comunidades ciganas. Isso deveria ter servido de lição e de alerta para a tal esquerda sapiente, mas ela achou-se num patamar acima da necessidade de ter de aprender qualquer coisa com Ventura. Nada disso ajudou a resolver o problema, como é óbvio, mas o Chega ganhou um trampolim para penetrar no lúmpen popular onde se alimentam todas as demagogias. Daí até Ventura extravasar o seu discurso para todos os imigrantes estrangeiros de pé-descalço foi um pequeno passo, alimentado num estendal de mentiras despudoradas e de desprezo absoluto pelos números reais. Mas, quando lá chegou, já tinha feito caminho sufi­ciente para que os seus seguidores se preocupassem apenas com o discurso e não com os factos.

André Ventura é perigoso porque reúne em si o pior que uma democracia pode produzir e consentir, de acordo com as suas próprias regras: é um brilhante tribuno e um demagogo desprovido de quaisquer escrúpulos. Como qualquer demagogo, dirige-se à crença dos ignorantes com a facilidade de uma D. Branca a vender esquemas Ponzi a velhinhas incautas.

O método, o mesmo de todos os vendedores de feira, é infalível: apresentar soluções simples para problemas complexos. Pôr a pensão mínima de reforma igual ao salário mínimo e financiar isso com dinheiros europeus ou lucros do “combate à corrupção”; dar a todas as forças de segurança um subsídio de risco equivalente aos operacionais da PJ e pagá-lo com a poupança feita no combate à “ideo­logia de género”; terminar com a subsidiodependência, mas, ao mesmo tempo, pagar promoções retroactivas a toda a Função Pública que o reclamar. Fica alguém de fora, alguém se opõe? Então, vamos ganhar as eleições e “limpar Portugal”.

Hoje, as maiores ameaças às democracias — salvo em casos extremos, como Trump, nos Estados Unidos — não são os fascistas nem os movimentos de extrema-direita: são os demagogos, os populistas à solta. Aos fascistas podemos sempre recordar-lhes o seu passado histórico de ignomínia, podemos recuperar as fotografias dos seus rostos e das suas vítimas, os seus discursos de ódio, as suas prisões, as perseguições, a censura dos adversários. Mas os demagogos não têm propriamente um historial registado, não há fotografias dos seus danos ou crimes, os seus rostos são simpáticos e os seus discursos atraentes, o seu poder resulta de voto do povo, e não de golpe, e a sua doutrina não se pode combater no campo da informação, porque está condenada a ser derrotada no da ignorância. Estar informado dá trabalho: é preciso ler jornais, ler livros, consultar estudos e estatísticas, ver museus, ouvir música, viajar, olhar, falar com outros, pensar. Sim, é um trabalho elitista. Ou um luxo, para quem acha que isso é um luxo. Mas, inversamente, também há quem pense que um luxo é não ter que se preocupar com isso. Salazar disse que os portugueses gozavam do luxo de apenas terem de se preocupar com o seu trabalho e a sua família, porque da política ocupava-se o Governo. Lembrei-me disso quando contemplava a assembleia de fiéis de Ventura no Congresso do Chega (a que um congressista, confundindo com o público, chamou “o púlpito”). Cinquenta anos depois, os portugueses continuam a dividir-se em duas espécies: os que fazem questão de pensar pela sua cabeça e os que gostam de ser pensados por outrem. Por vezes até parece que se dividem entre uma alcateia de lobos, que não quer ser governada por ninguém e extermina qualquer um que se atreva a tal, e um rebanho dócil de carneiros, que só pede um pastor que os leve diariamente do curral à pastagem e vice-versa. Mas one man, one vote: para decidir o nosso futuro comum, o voto destes vai valer tanto como o dos outros.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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11 pensamentos sobre “A pregação de Santo André

  1. Lindo, a venda das, terras do Leste da Ucrânia a, empresas americanas foi agora. Não foi em nenhum passado longínquo. Como tu bem sabes. Já sei que somos todos os idiotas e tu és o único iluminado.
    E não me venham dizer que estão cheios de peninha dos migrantes e é que por pena que não querem acolher cá nenhum.
    Não sei de onde vem essa teoria dos coitadinhos porque para ti os coitadinhos são quem tem de acolher os tais escuros a quem pilhamos as terras. É se para ti 2011 e um passado assim tão longínquo não sei que te diga.
    Já agora apoiar o estado islâmico para oferecer proteção mafiosa aos estados afectados também não foi boa ideia, como se viu. Já sei que é mentira que na realidade fossemos nos a apoiar essa gente. Mas se não éramos nós onde é que eles iam buscar as armas de fabrico ocidental que exigiram na Síria e Iraque e em cenários africanos?
    O Ocidente continua a aplicar receitas do passado, nomeadanente colonialismo e criação de guerras civis jogando grupos uns contra os outros. Mas para ti a nossa superioridade moral metesse pela capacidade de dar uma vida regalada a, quem cá vive sob a sua autoridade não interessa o que tenhamos de armar nas terras dos escuros a que agora juntamos os russos.
    O problema é que abrimos tantas frentes que nem isso estamos a conseguir. Engordamos uma oligarquia e a plebe afunda na inflação e na austeridade. E se não nos meterem mais um veneno experimental no bucho que mate alguns e transforme a vida de muitos outros num saco de gatos ja vamos com sorte. Já falam por aí numa doença X. O passado é agora. Vai ver se o mar dá choco.

  2. Oligarquias e o que mais temos no Ocidente e todos sabemos disso. Por mim não apoio oligarquia nenhuma mas não posso é conceder ao Ocidente o direito de ir bombardear e matar seja onde for sob o pretexto que os outros países são oligarquias e ditaduras. Para depois matar mos o ditador e por mos lá outros ditadores e oligarcas mas que nos vendam baratos os recursos do país. Mas que nos criam mais um problema porque os ingratos libertados começam a fugir a unha de cavalo.
    Que foi o que nos anos 50 fizemos no Irão consolidando o poder de um monarca absoluto e destituíndo um governo laico. Foi o que fizemos na America Latina e na Indonésia.
    O Ocidente dasse lindamente com oligarquias e ditaduras desde que elas vendam barato os seus recursos. Nunca ninguém ladrou contra a oligarquia da Arábia Saudita.
    Ninguém se chateou com os oligarcas russos no tempo do Yeltsyn. As oligarquias só começam a ser oligarquias quando dizem “o que cá está ainda é nosso”.
    Aí é que nos lembramos de que o pobre povo daquele pais precisa ser libertado via uma boa dose de bombardeamentos libertadores.
    A Europa teria muito menos gente para acolher se não tivesse destruído o único país do Norte de África que funcionava e dava trabalho a milhões de africanos. Mas em 2011 fizemos mal as contas e mais uma vez não sabemos como descalçar a bota.
    Por cá vamos tendo uma ilusão de democracia votando de quatro em quatro anos e podendo ir dizendo alguma coisa.
    Mas se as restrições covideiras e a pressão para, ir meter coisa experimental no bucho não chegou para vermos a rapidez com que tanto a democracia como a livre circulação desaparecem da noite para o dia assim interesse alguem nada a fazer.
    E, claro, falamos mal dos imigrantes e sentimo nos invadidos mas a verdade é que todos contratam a Glovo e a Uber Eats e adivinhem quem lá está.
    E se, achamos que em termos de cooperação podemos fazer melhor que a China e começar mesmo a fazer, deixando os bombardeiros em casa. Porque já devia ter dado para, perceber que tentar democratizar a bomba e financiar terroristas só vai dar é mais migração.
    Agora por mim só posso rir quando penso em países para onde nem o diabo quer emigrar como a Hungria a ter políticos a “fazer fortuna” com discursos anti emigração.
    Os migrantes são mão de obra barata? Infelizmente são como o éramos nós, os espanhois, os italianos e os gregos nos anos 60 e 70 do Século passado.
    Sendo que nos e os espanhóis tínhamos ditaduras ferozes consideradas pelos altos poderes Nato como defensoras do mundo livre, quando aqui se podia ser preso e em Espanha morto por dizer que a vida estava cara.
    E, no caso português com a Ajemanha toda a gente ficava a ganhar porque no primeiro ano se contrato 10 por cento do salário do trabalhador ia direitinho para os cofres do Salazar.
    O problema da mão de obra barata resolvesse com uma fiscalização do trabalho que funcione e com a fixação de ordenados mínimos decentes. Não é certamente deixando o pessoal afogar se no Mediterrâneo.
    E os migrantes não são na realidade ameaça nenhuma pela, simples razão que ninguém quer que o seu filho seja trolha, trabalhador rural ou indiferenciado na hotelaria. O resto é conversa de, quem se quer sentir importante odiando gente escura.
    De resto não quero proibir fascistas mas também não me pecam para tentar argumentar com eles. Porque meter juízo naquelas cabeças e impossível e eu não estudei psiquiatria.
    O que é que dizemos a um treteiro que se diz invadido pelos migrantes e que vê a islamizacao do país no Martin Moniz?
    A única coisa que posso fazer é não embarcar em discursos desses e não votar neles a 10 de Março.
    E quem quiser que continue a achar que está a ser invadido por gente agredida e morta por canalha de extrema direita. E que faz os trabalhinhos de corno que não queremos fazer. Como trabalhar nas estufas do litoral alentejano que no Verão são tão fresquinhas.

    • Todo o idiota incapaz de compreender o presente se refugia a trazer do passado o que mais lhe convenha, que desde factos a atoardas sempre estão ao abrigo de fácil verificação.

      Quanto ao mais, tudo se constrói ignorando o tempo dos verbos e o significado das palavras para compor as historietas que, a darem-se ares de exprimirem a doutrina dos coitadinhos, manifestam a arrogância dos que que lhe associam profissões que desprezam privilegiando as sinecuras a que entendem ter direito.

      Contratar trabalhadores migrantes é bem diverso da ‘obrigação de acolher toda a miséria do mundo’, como bem diverso é todo o universo de lojas de contrabando humano e venda de quinquilharia, com que se povoam casas a abarrotar de gente escravizada; mas para a cretinagem tudo que tem cor tem igual função social.

  3. Se quiserem saber como serão os países europeístas daqui a 10 anos, se nada for feito com urgência, basta passar um dia em Bruxelas…Um conselho: não se esqueçam do colete à prova de bala e do protetor de pescoço (um colar de Kevlar para evitar hemorragias) durante esta viagem turística.

    Depois deste dia, qualquer pessoa com um mínimo de inteligência compreenderá onde reside o verdadeiro problema.
    Afinal, a nossa “democracia oficial” oferece estágios em certos campos nazis para se ter uma ideia de “como era há 100 anos”. A visita a Bruxelas é sobre “como é que as coisas são AGORA”.

    Quanto mais se avança para leste na Europa, mais se encontra um país com “quadro de giz”, mesmo começando pela antiga Alemanha de Leste e passando depois para a Polónia e a Hungria, por exemplo. Estes últimos países não querem ser como Bruxelas tão cedo, e é por isso que os movimentos anti-migrantes estão a aumentar.
    Por outro lado, não percebo porque é que não querer demasiados imigrantes é ser de extrema-direita!

    Ironicamente, a “empatia” demonstrada pela esquerda para com os imigrantes está a fazer o jogo do grande capital, oferecendo-lhes mão de obra barata. A esquerda e o grande capital estão na mesma equipa e só um despertar maciço da equipa de pessoas que ainda estão lúcidas poderá dar a volta à situação. Não é uma questão de ter mais coração para a miséria do mundo, mas de compreender que não podemos importar milhões de estrangeiros sem controle nenhum. O futuro vai ser complicado e, como toda a gente, esperamos que a próxima cabeça a rolar no chão não seja a nossa.

    Esta UE não é cega. Está apenas a seguir a agenda que lhe foi imposta por bilionários e a fazer fortuna com isso. Só agora é que alguns países estão a acordar para o facto de termos acrescentado países que só nos trouxeram mais dívidas. As ONG bilionárias estão a enriquecer à custa dos africanos, indo diretamente aos barcos para os ir buscar… Há demasiadas coisas que nos estão a ser escondidas. A corrupção está em todo o lado… e agora querem impô-la à Ucrânia, um país onde a corrupção grassa há vários anos…

    O facto de querer proibir as pessoas, os povos de quererem estar em paz uns com os outros, de se exprimirem, de serem eles próprios e de terem uma identidade, é exatamente o que vai levar as pessoas a votar com ainda mais convicção nestes partidos.

    Coagir as pessoas, infantilizá-las e gozar com elas desprezando-as nunca levou a lado nenhum, é exatamente o oposto, vão levar com uma revolução na cara e pronto.

    Sou a favor da proibição dos extremos de qualquer tipo de política, mas o problema é como definir a política extrema de forma a que não seja utilizada abusivamente para rejeitar os opositores políticos? Quando se vê que hoje em dia é fácil designar uma orientação com base em nada…. acabaria por ser acima de tudo antidemocrático.

    O princípio de uma verdadeira democracia é promover o pluralismo.
    Só que o pluralismo à la carte, em que se decreta a proibição de um tipo de partido e de ideologia em vez de se lutar, como se espera, com base em factos, ideias e popularidade, é algo problemático.

    E, sobretudo, como conceber uma paisagem política privada de extremos sem que isso conduza inevitavelmente à radicalização e a uma deriva oligárquica autoritária dos partidos moderados (que deixarão de ser moderados de facto)?

    O que considero perigoso na ideia de anatematizar um partido, declarando-o inconstitucional para justificar a sua dissolução, é o facto de o conduzir à clandestinidade e de o obrigar a ações dignas de uma rede de milícias (militância exacerbada, sabotagem, propaganda clandestina, represálias dirigidas, etc.). Em suma, se algo de semelhante acontecesse em Portugal, nós, cidadãos comuns, ver-nos-íamos presos entre o “martelo” que é o partido no poder, dilacerado pela sua impopularidade, pelas suas divisões internas e por uma viragem securitária e repressiva cada vez mais acentuada, e a bigorna, que seria a miríade de pequenos grupos, mais ou menos bem infiltrados em várias instituições, que travam uma guerra na sombra semelhante à da máfia, tanto informativa como directa (atrocidades, guerras de rua, ajustes de contas ou pior, operações sob falsa bandeira…). ..).

    Não precisamos mesmo, mesmo nada disso (e ninguém no seu perfeito juízo o quer).

    Dá-me vontade de rir quando vejo bloquear pessoas nas redes sociais que falam de forma adulta e madura, sem insultos, só porque não concordam com as ideias deles e ao mesmo tempo fazem um discurso sobre a morte da liberdade de expressão porque querem transformar a extrema-direita. Ah, sim, é verdade, estás do lado do bem, é normal que escolhas quem tem o direito de expressar as suas ideias e que faças criticas , ou seja, fechar-te numa bolha de pessoas que te apoiam e evitar qualquer contradição.
    Ao fim de algum tempo, temos de nos questionar, não acham?

    Se queremos que as pessoas nos deixem falar, temos de deixar os outros falar também. Com um pouco de sorte poderemos reagir e fazê-los compreender os seus erros ou estar calados. Em suma, em geral, sou contra qualquer tipo de censura e considero bastante hipócrita.

    Isto tudo depende de que lado se está virado, “muda tudo”. Por mais estranho que possa parecer, esta frase faz muito sentido no contexto. Para mim, extrema-direita e extrema-esquerda são EXACTAMENTE a mesma coisa. Usa o exemplo da Alemanha dos anos 30 e 40, mas a URSS também era de extrema-esquerda. Mas não podem esperar que eu acredite que era ultra-tolerante, pois não? Não era uma boa altura para ser negro, muçulmano ou homossexual na Rússia, isso não é verdade.

    Os extremos convergem inevitavelmente. Penso que, se a extrema-esquerda chegar ao poder, as pessoas que defendiam (imigrantes, muçulmanos, LGBTQ+) tornar-se-ão os alvos dos seus ataques.

    Nos EUA, grupos de extrema-direita como o KKK continuam a fazer das suas e é muito difícil proibi-los. Receio que esta extrema-direita (para além de não resolver o problema, mas deslocá-lo) abra a porta a grandes loucos como esses.

    As sociedades precisam de ser mais equilibradas, de pensar e discutir (e não gritar) em vez de gritarem umas com as outras e dizerem “vejam como eu estou certo e vejam como ele está errado! Porque ao fazermos isto durante anos, levámos as pessoas a acreditar que é assim que se debatem ideias. O resultado é que a população simplesmente segue e cai na ignorância, permanecendo num estado de egocentrismo, apenas com pessoas que pensam como ela (inevitavelmente, se nunca estivermos frente a frente com pessoas que pensam de forma diferente de nós, não nos enriqueceremos).

    Muitos dizem que as pessoas estão agora “demasiado politizadas”. Errado! Elas ACREDITAM que estão politizadas. Estão, de facto, cada vez mais activas na política, mas percebem cada vez menos de política (e estou a colocar-me nesta categoria. Tenho 54 anos, por isso não me considero um especialista NEM DE PERTO). E, nesse aspeto, o sistema educativo Português tem uma grande responsabilidade. A ignorância só aumenta porque o sistema Português é uma confusão gigantesca e sem nome. E quando a ignorância aumenta, a desgraça não está longe (os extremistas, mesmo extremistas por exemplo).

    Toda esta confusão tem origem numa coisa: a ignorância, que só está a aumentar. E quer sejam de esquerda ou de direita.

    Já não estamos seguros em lado nenhum do Ocidente… A coisa vai aquecer…

    • « a agenda que lhe foi imposta por bilionários»
      A óbvia concessão ao corretês esquerdalho!

      É a estupidez da esquerdalhada, com o seu apoio a toda a ditadura e oligarquia que se diga opositora ou vítima do Ocidente, e assim servindo os seus delírios anticoloniais negacionistas da História, que criou esta cretinice de que a Europa tem de acolher toda a miséria do mundo, a começar pelas vítimas dessas ditaduras e oligarquias arvoradas a eternas vítimas do colonialismo e imperialismo ocidental, que o chinês e o russo wagneriano nunca conta para o efeito porque, com sua plena integração na corrupção local, são sempre tidos por fraternos cooperantes!

  4. Continua a ver o que lhe é conveniente, como não podia deixar de ser

    «Mas a esquerda, […] acha que para travar o Chega basta chamar-lhe fascista e logo acrescentar os dois outros inevitáveis adjectivos do mantra: racista e xenófobo. E depois sentam-se, à espera de que as palavras bastem. É como o combate à seca no Algarve: só quando a água está na iminência de faltar nas torneiras é que percebem que o problema não se resolve só com discursos, relatórios e estudos sucessivos.»

    Sim, bastam as palavras. Se ignorarmos a transparência bancária, o financiamento dos partidos, a acumulação que o permite, melhores condições e renumerações de trabalho, o trabalho escravo, a uberização, o controlo democrático das forças de segurança, ensino de cidadania, e por aí fora nas coisas que o miguelito nunca foi ou seria a favor, de facto, só restam os mantas que prevêm isto à séculos; que sempre são mais que os dogmas dos seus camaradas e correligionários, que tanto lhes serve depois de dar tanto palco a esta gentalha, tal como nada tinham a dizer à idêntica lenga-lenga do CDS. É, de facto, como o combate à seca e às tentativas de regulação e controlo da construção, monocultura, ou aposta em baixo valor acrescentado.
    Querer manter tudo na mesma e esperar um resultado diferente é a definição de imbecilidade, miguelito. E tu nunca hás-de passar disso.

  5. Vivendo há 50 anos em sucessivos banhos de demagogia, aparece este inteligente a descobrir um demagogo!
    Toda a demagogia da igualdade, como se não houvesse uma cultura cigana persistente, uma subsidio dependência crónica, uma doutrina dos coitadinhos enfadonha, um culto da mediocridade nojento, uma tolerância do chico-esportismo enfastiante.
    Denunciar a demagogia poderá vir a ser demagógico quanto às soluções, mas enquanto denúncia é pura sanidade.
    E quanto à corrupção, os demagogos dizem que que não há dinheiro nela.
    Sem uma Justiça actuante provavelmente não na sua expressão mais óbvia, mas quanto de ‘economia paralela’, organizada em boa parte como legítima defesa de um Estado incompetente e predador, poderia tornar-se em efetiva base de crescimento económico e renda pública?

  6. « Chega, conseguiu tornar-se notícia explorando sabiamente a volúpia cega da comunicação social»
    E que dizer da vaga dos PSP-GNR-GP entre outros?
    Sem as TV a difundir dia após dia, teriam durado mais que dois dias?
    Mal empegue o valor entregue para estudo benchmarking, modelo Administração Pública de país europeu desenvolvido, a oferecer ao governo? pela AOFA!
    E da SEDES, já resultou algo de positivo?
    Os inúmeros capos sindicais na PSP e GNR, a substituir-se ao ministro das Finanças. Pois.

  7. A Europa que está toda já na mão da extrema direita, se definirmos como tal partidos que, apostam no racismo e na guerra.
    O caso Ucrânia foi típico. Na Alemanha um partido supostamente social democrata só não defendeu a invasão da Rússia a cara podre porque, sabe que o dito pais tem armas nucleares e uma invasão traria consequências ainda piores que a invasão hitleriana. Mas toda a postura belicista anti russa fez lembrar outros tempos.
    Em Portugal um primeiro ministro supostamente socialista foi prestar vassalagem a Zelensky e disse que, só a vitória do regime ukranazi poderia trazer a paz.
    Macron, um lider que não é carne bem peixe também ladrou contra a Rússia o que pode e deu aos ucronazis todas as, armas que pode.
    Em toda a Europa o cenário desolador foi o mesmo, qualquer que fosse a suposta cor de quem estava no poder.
    Uma aposta no fascismo, no racismo e na guerra para resolver todos os nossos problemas. Leia se conseguirmos de graça os recursos da Rússia.
    No caso do genocídio em Gaza já ninguém sabe como descalçar a bota porque Netanyahu não tem papas na língua e diz claramente ao que vai e o que já queria fazer antes de 7 de Outubro. Porque as romarias e o apoio à Israel foram outra unanimidade qualquer que fosse a cor dos governos.
    E ficaram muito espantados porque desta vez não conseguiram a unanimidade da população como conseguiram com a Ucrânia. Esqueceram se que muitos de nós crescemos com os crimes Israelitas. Ao passo que, os ucranazis, se matarem em pito anos 14 mil pessoas no Donbass, não conseguiram cometer crimes em tão vasta escala. E os meios de comunicação ocidentais foram maus, eficientes em calar, esses crimes do que em calar os crimes Israelitas de que todos sempre tivemos algum conhecimento.
    Claro que tudo isto também leva muito boa gente a achar que nada vai realmente mudar se votarem na extrema direita e por isso vamos lá experimentar a ver o que o homem faz.
    Quanto ao nosso quarto pastorinho não é por a esquerda lhe chamar fascista, coisa que ele é, que o homem consegue cada vez mais votos. É justamente por apelar aos mais baixos instintos que todos temos.
    Na questão dos ciganos o homem sobe aproveitar a cama que lhe fez o Paulinho das Feiras com o seu discurso anti beneficiários do rendimento mínimo, tendendo a identificar estes justamente com os ciganos.
    E claro que o que, se pretende impor é uma agenda fascista, com a subalternizacao dos trabalhadores em geral e das mulheres em particular.
    O homem será um demagogo, um populista mas é também um fascista. E a esquerda só lhe podia chamar fascista.
    E se gente de esquerda votou nele, para gáudio de muitos articulistas e porque a malta de esquerda também é humana e por isso permeável aos discursos que apelam aos mais baixos instintos, nomeadanente a tal inveja a, quem recebe rendimento mínimo e que segundo os fascistas serão só os ciganos.
    Que muita gente acusa de não se quererem integrar mas, se uma cigana estiver na caixa de um supermercado preferem enfrentar uma bicha de 20 pessoas numa caixa em vez de irem a caixa da cigana. Vi eu, numa Páscoa, ninguém me contou. Assim me livrei de uma fila quilómetrica. Mas muitos desses vão depois a igreja bater com a mão no peito. E lançar atoardas sobre ciganos que não se querem integrar. E votar no fascista Ventura. Vão ver se o mar dá choco.

  8. Como gosto de geopolítica ,também leio e estudo estes fenómenos com factos.

    Na minha humilde opinião a resposta é fácil: as pessoas dos diferentes países querem alguém que se oponha ao sistema. Por isso, votam na extrema-direita, porque os opositores parecem ser contra o sistema. Excepto que é apenas uma oposição aparente, porque na sua profissão de fé não há qualquer menção contra os sistema. Foi o caso de Meloni, Kurtsk, Orban, Tzipras e, em breve, de Le Pen, se esta chegar ao poder.

    Enquanto os governos não se ocuparem dos problemas reais das pessoas e não retirarem o poder ao Capital (que, sejamos claros, detém o verdadeiro poder), haverá a tentação da extrema-direita ou da extrema-esquerda. Estamos na mesma situação que nos anos 20 e 30 na Europa. A diferença é que o capital aprendeu a lição do passado e compreendeu que a ascensão da extrema-direita não constitui um perigo para ele, porque não põe em causa a repartição das riquezas, ao contrário da esquerda. Os proprietários brancos não arriscam nada. Na pior das hipóteses, os negros e os árabes são perseguidos e isso não lhes diz respeito. Depois, os proprietários pagam a canais de televisão ou a jornais para influenciarem o povo e colocarem os pobres uns contra os outros. Clássico, mas eficaz.

    Serviços públicos: hospitais, escolas, justiça,juros,etc,etc …….
    Inflação de 2 dígitos
    Aumento dos preços da energia e dos combustíveis (graças às sanções contra a Russia)

    Estes são os verdadeiros problemas que enfrentamos TODOS os dias!

    Ainda não consegui encontrar uma definição clara e unânime do que é a extrema-direita, apesar de estar na boca de toda a gente.
    E pergunto-me qual é a diferença entre a política migratória da “extrema-direita italiana” (a que alguns chamaram mesmo ultra-direita fascista), a da extrema-esquerda grega e a política migratória francesa.
    E a política de migração definida pela UE ? Que peso têm os governos europeus quando vemos, por exemplo, que a extrema-direita italiana pedir ajuda à UE para acolher e integrar os imigrantes, e quando sabemos que os números da imigração aumentaram em Itália desde que Méloni assumiu as rédeas do país?

    Extrema-direita não significa nada. O termo é utilizado para tudo e mais alguma coisa, mas, regra geral, os opositores destes partidos utilizam-no para descrever os partidos soberanistas, ou seja, os partidos que colocam os cidadãos do seu próprio país em primeiro lugar. A realidade observável é que estes partidos, uma vez no poder, se dão muito bem com a União Europeia,e com o liberalismo predador o que atenua bastante o seu extremismo.

    É uma “especie” de fraude a extrema-direita moderna, que já não é tanto keynesiana e estatista como está em sintonia com o capitalismo liberal, que também é fundamentalmente desigual.

    No nosso tempo, a dialética tende a ser utilizada em excesso. Os extrema-direita sempre foram anti-semitas convictos e não o escondem; são anti-parlamentares e anti-republicanos. São nacionalistas conservadores, frequentemente católicos praticantes e monárquicos. Aqueles que o MST descreve como sendo de extrema-direita são muito mais tépidos do que isso e, em última análise, estão muito satisfeitos com as instituições. Nunca ouvi o AV falar em abandonar a República.

    Porque é que chegámos a este ponto é muito simples. A globalização desenfreada dividiu as sociedades em duas categorias de pessoas: os vencedores e os perdedores da globalização. Estes últimos são mais numerosos. Gerou uma desconfiança relativamente a políticas que, sejamos claros, pouco fizeram para travar o movimento e pouco fizeram para proteger os seus cidadãos. Pelo contrário. Com a União Europeia e os tratados de comércio livre, deixaram escapar o seu poder em benefício dos financeiros e das multinacionais. Em muitos países, depois de 1989, a esquerda não teve força para apresentar um contra-modelo ao liberalismo absoluto e deixou que isso acontecesse. Esqueceram-se do povo , quando é o seu papel primordial defender os pequenos. Resta, portanto, apenas a extrema-direita que, sob uma maquilhagem social, contestou esta mundialização descontrolada e nefasta para as pessoas comuns. As pessoas estão fartas e votam naqueles que parecem dar respostas aos seus problemas, os “populistas” (termo desprezível usado pelas classes superiores vencedoras do sistema). O drama é que a esquerda (que, na minha opinião, tem as respostas certas) se desacreditou durante os anos 90 e 2000 e, portanto, a direita populista prevalece.

    O racismo é condenável, mas nem todos os nacionalistas são racistas.

    O problema na Europa não é a extrema-direita, mas sim a Europa….
    Esta Europa que castra as nações e se delira na corrupção em todas as direções.

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